julho 31, 2003

Um dia...

Um dia...
Há sonhos que duram um dia
Há momentos lindos que duram um dia
Há tristezas que perduram dia após dia

Um dia...
Sonho que um dia tudo será diferente
Viverei o momento com alegria
Largarei toda a tristeza que me invadiu
Um dia...
Também tu poderás sonhar
Imaginar momentos que virão
E essa tristeza não mais sentirás
Um dia...
Todo o mundo sonhará
Tudo será um momento
E ninguém conhecerá a tristeza
Um dia...
Espero pelo sonho
Vivo o momento
Largo a tristeza
Um dia...
O sonho sonhado virará o momento e a tristeza perder-se-á no momento do sonho.
Um dia...

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julho 30, 2003

Quem es?

"- Quem és?"
"- Não sei"

"- Não sabes?!"
"- Não."
"- Como é que podes não saber?!"
"- Não sabendo."
"- Mas como?"
"- Assim... não sei."
"- Tens de saber quem és!"
"- Não, não tenho."
"- Porquê?"
"- Porque saber quem sou não me diz nada."
"- Como não diz nada? Diz-te quem és!"
"- E o que é ser?"
"- Ser... é ser alguém!"
"- Mas eu sou alguém, só não sei quem sou."
"- Não podes ser alguém sem saber."
"- Posso."
"- Como?"
"- Sendo."
"- Sendo o quê?"
"- Aquilo que sou."
"- Mas como podes ser o que és sem saber quem és?"
"- Posso não saber quem sou, mas saber o que sou."
"- O que és tu?"
"- Eu sou tudo aquilo que quiser ser."
"- Então sabes quem és."
"- Não, apenas sei o que sou."
"- E o que és?"
"- Sou tudo aquilo que quero ser."
"- Não percebo."
"- Não percebes porque não és o que queres."
"- Sou."
"- És o quê?"
"- Sou eu."
"- O que és tu?"
"- Uma pessoa."
"- Não és o que queres,
és o que fizeram de ti."

18 de Março

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julho 28, 2003

1º de Maio

Cinco horas da madrugada
Noite cerrada lá fora
O despertador toca
E dos sonhos rouba-te

Mais um dia a iniciar
Mesmo sendo de noite
Levantaste do repouso
E preparas mais uma jornada
Às seis já estás pronto
Um beijo em cada filho
(Parecem uns anjos ali deitados)
E todos os dias o mesmo pensamento...
"Que por isto eles não venham a passar"
Abres a porta e logo te arrepias
Um frio gelado entra por ti
Congelando-te a alma
Teu caminho segues
Todos os dias igual
Sempre o mesmo tormento
Contando os dias para o final
Contando o dinheiro
Esticando sempre que possível
Até ao fim do mês
Mais uma esmola que entra
Na magra carteira
E logo se esvai sem fazer peso
E todos os dias a mesma rotina
Sem saberes quando termina
Sem certeza de continuar no dia seguinte
Sem direito de descanso
Lá vais levando a tua labuta diária
Sete dias da semana és do patrão
Doze horas por dia
Sem os teus filhos
Mas sabes que um dos 365 dias é teu
Aquele que ainda não vives
Aquele que vives sempre com euforia
De punho no ar pedes pelo que mereces
Pedes pelo que sempre te vão roubando
De punho no ar gritas vivas a esse dia
Que a ti ainda não chegou
Mas um dia chegará
O primeiro de maio será teu
Ou dos teus filhos por quem tanto trabalhas!

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Chora

Chora por quem não amas
Chora por quem não queres
Chora por quem não é
Chora por quem matas
Chora por quem destróis
Chora por quem roubas
Chora por quem violas

Deita essas lágrimas
Lágrimas mortas
Lágrimas de sangue
Lágrimas secas
Lágrimas podres
Lágrimas sujas
Lágrimas tuas

Põe a mão no coração
Coração que bate lento
Coração mirrado
Coração desgraçado
Coração perdido
Coração nojento
Coração transparente
Coração vazio

Abre os teus olhos
Olhos cegos
Olhos de raiva
Olhos de nada
Olhos de sofridão
Olhos de podridão
Olhos de solidão

Levanta-te dessa ignorância
Vem ver o mundo que ajudas a destruir
Vem ver o mundo que ajudas a construir
No meio de quem matas
Crianças choram
Crianças morrem
Crianças matam

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Bebé

Olhando-te com a luz fraca
Vejo-te dormir descansado

Com três dias deste mundo
Ainda nada sabes
Teu pai te protegerá
Tua mãe te guiará
E todos te amaremos
Meu lindo, tão pequeno que és...
Esta tua fragilidade de hoje
Virá tornar-se na força de amanhã
Dia após dia crescerás
Aprenderás
Errarás
Mas vais ser forte!
Se te pudéssemos privar do sofrimento
Seria um erro,
Pois não chegarias a saber
O que é a felicidade.
Mas olhando assim para ti,
Tão inocente dormindo
A tentação torna-se cada vez mais forte!
Para não conheceres o sofrimento
O mundo não podes viver.
Vive o mundo, meu lindo
E um dia, poderás olhar um bebé
E sentir o que aqui sinto de lágrimas nos olhos

2 de Dezembro, 2002

Publicado por lobalpha em 12:57 AM | Comentários (1) | TrackBack

Sentada nas Nuvens

Sentada nas nuvens
Vi o mar
Tudo parecia calmo!

Mesmo eu,
Não mostrei a dor.
A saudade na partida,
A angústia na despedida
Fica tudo na memória
E no coração gravado
Aquele mar imenso
As falésias rasgadas
O céu sem fim...
O manto de estrelas
Que me cobriam
Noite após noite...
Para trás os deixo
A outros vão encantar
A outros vão dar que sonhar
Mas em mim,
Para sempre ficarão!
Se tudo isto...
Queria eu ter partilhado contigo
Os campos verdes
Os montes que se perdiam
Mar... em todo o lado, o Mar
Aquele vento que lava a alma
A água que espelha o coração
Se tudo isto eu tivesse contigo
Hoje não sentiria a tristeza de regressar
Encostaria a cabeça no teu ombro
Fechava os olhos como agora
Voava para lá e ouvia...
O mar bater nas rochas
A sua doce melodia...
Tudo isto,
Se te tivesse comigo para partilhar...

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Dias

Conto os dias para te ver
Como um condenado
Conta os dias para a liberdade

Vivo nos sonhos para te encontrar
Para te abraçar
E ouvir a tua voz chamar meu nome
Um arrepio percorre-me
Sinto o aperto no peito
Quero tocar-te,
Quero sentir-te...
Cada vez mais longe te vejo!
Começas a desaparecer
Eu choro...
Volta!
Deixa-me ver-te
Deixa-me ter-te
E só eu fico
No único lugar onde te posso ver...
O meu sonho!

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julho 24, 2003

Tempo de dormir

Uma cama de pedra
Uma cama de madeira
Uma cama ao ar livre
Uma cama inventada

Em nada verdadeira
Aquela que tens para ti
Aquela que eu não quero
E tu também não...
Um banco de jardim
A cama de verão
O chão do metro
A cama de inverno
Saltitas com o tempo
Chuva e vento
Sol e calor
Só esse tempo te interessa
Só esse tempo te move
Segundos
Minutos
Horas
Dias
Semanas
Meses
Anos
Já nada interessa
Deles já não te lembras
Deitado nas tuas camas
Se alguém tens
Alguém ignora tua existência
Se não tens
Sabe que quando por ti passo
Sempre te vejo
Seja a comeres o teu pequeno bolo
A embrulhar a trouxa
Ou quando dormes no jardim
Aí observo-te
E pergunto-me com que sonharás
Tão calmo pareces sempre
Conformado com a solidão
Com a rua
Por ali vagueias
Sem pressa
Sem tempo
O teu tempo é outro
Tempo de dormir no chão
Ou tempo de dormir no banco do jardim...

9 de Junho, 2003

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Hoje sonhei contigo

Hoje sonhei contigo. Foi um daqueles sonhos em que sorríamos, olhando um para o outro sentiamos a felicidade expressa no brilho dos olhos. Corremos de mãos dadas, rebolámos pela relva suave, beijámo-nos...

Sonhei contigo, bem junto a mim sem te apartares. Estavas com o teu ar de menino-homem, protegias-me e pedias-me protecção. O teu olhar estava tão doce que ainda o consigo saborear.
Brincámos à beira-mar, pegaste-me como quem pega numa folha leve, tiveste-me nos teus braços, balançaste-me ao sabor do vento e pela mesma água fomos baptizados! Quando fiquei com frio, enrolaste-me no teu casaco, abraçaste-me... para aquecer mais depressa, disseste tu! E aqueceu... sentir-me assim, envolvida por ti fez o meu coração pegar fogo. Bateu mais forte, pulou de alegria!!!
E quando me beijaste a testa, os olhos fechei e mil beijos imaginei.
Sonho meu, sonho meu, faz com que estes lábios ele queira como os meus querem os dele...
E assim foi, teus lábios nos meus, tua boca contra a minha, num lento dançar, sofregante e apaixonante, num sonho cheio de sabor ainda te sinto colado a mim. As tuas mãos a prenderem-me com força, corpos pegados, unidos na perfeição. Uma mão na cabeça e outra... senti-a percorrer-me. Senti-a aquecer meu corpo no seu leve passar, arrepios e paixão, quente e frio, loucura e razão... tudo junto no mesmo sonho.
No meu sonho.
Aquele que sonhei esta noite.
Este mesmo sonho que relembro e ainda saboreio, cada prazer, cada toque, cada sensação...

Publicado por lobalpha em 09:33 AM | Comentários (0) | TrackBack

julho 23, 2003

Silêncio

Sabes que gosto de ti?
Acho que sim
Achar não é nada
Sei

De certeza?
Penso que sim
Não acreditas em mim?
Acredito
Não confias?
...sim
Porque não tens a certeza?
Não sei
Porquê?
É fácil desiludir
E confiar?
Não
Já não confias?
Não sei
Magoei-te?
Sim
Desiludi-te?
Sim
Gostas de mim?
Não sei
Conheces-me?
Acho que sim
Conhecias... porque deixaste de conhecer?
Desiludiste-me
Uma vez... sou a mesma, não me vês?
...vejo
Não me queres?
Não sei
Tens medo?
Sim
Não posso prometer um mar de rosas
Eu sei
Mas sei que gosto
Eu sei
E que quero... muito
Eu sei
E tu?
Eu... não sei
Tudo mudou com um soprar de vento
Parece que sim
Não consigo acreditar
...
Se estás assim é porque gostas de mim
...
Quero acreditar que sim
...
O teu silêncio... não sei
...
(e em silêncio ficamos os dois, sem saber o que fazer)

Publicado por lobalpha em 11:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

Que deus és tu?

Que deus és tu?
Uma criança chora na estrada
E dás-lhe chuva, frio e vento
Uma criança morre de fome
E atiras-lhe com um caroço

Que deus és tu
Que roubas um filho aos pais
Iludes com a esperança
E não deixas ver a cara?
Que deus és tu
Perdoas quem abandona
Abençoas o que mata
E levas aquele que vai ter amor
Despedaças todos aqueles que anseiam
Com mil punhais matas a criança no ventre
A mãe fica rasgada pela dor
Dilaceras todos sem dó
E sem dó deixas a outra criança
Largada na estrada
Abandonada por todos e por ti
Que deus és tu?
Que deus és tu
Que dizem proteger
Que dizem amar
Provocas sofrimentos sem cor
Retiras uma vida sem esta ter iniciado
E outras...
Iniciam mas vidas não são
Que dor deve ser
Filho morto no corpo da mãe
Dar à luz o ser sem vida
Procurar acreditar
Num segundo tudo se esvai no ar
Num segundo tudo levas
Que deus és tu?

18 de Julho 2003

Publicado por lobalpha em 11:15 PM | Comentários (0) | TrackBack