Sinto a noite entrar em mim
O céu fica negro e sem brilho
O sol derrete-se e a lua desaparece
Sinto toda a mágoa percorrer-me
Esmaga-me o coração
Torce-me as entranhas
Sufoca-me sem piedade
Tento gritar, mas não tenho voz
Quero fugir, mas perdi a força
Procuro onde me agarrar
Procuro salvar-me
Não consigo...
Quero desistir
Deixar-me ir
Não luto mais contra a maré
Quero que ela me leve
Para longe daqui
Quero viver no mundo de sonhos
Largar esta tristeza
Largar esta dor
É real e consome-me
Sinto-a roer-me
Quero fugir
Desaparecer
Quero... quero muito
Apenas as lágrimas se salvam
Saiem de mim, fogem-me
Tento agarrá-las mas são mais fortes
Sinto o sal na cara
O sabor que deixam nos lábios secos
Entro em desespero
Procuro uma saída
Está tudo negro à minha volta
A minha vida está de luto
O meu ser já morreu!
Sinto-me cair num abismo sem fim
Tudo fica negro à minha volta
Nada faz sentido,
Tudo perdeu o significado
Não sei o que ando a fazer
Caindo pelos cantos
As paredes amparam as quedas
O chão não me parece mais o limite
E o céu... cada vez mais se abate sobre mim
Começo a sufocar
Preciso respirar
Tento que o ar entre em mim
Puxo com força, tentando agarrar-me à vida
A pouca que ainda me resta
Tento não perder o sangue
O pouco que ainda me corre nas veias
Sinto a cada momento a força largar-me
Sinto-me a perder
Já nada sei
Pensamentos que me assaltam e assustam
O tempo pára em mim
E os meus olhos perdem-se no vazio
Tudo em mim está oco
Podre
O coração bate lento
Tão lento que já nem dói
Não consigo sentir mais dor
Estou anestesiada do sofrimento
Nada mais me importa
Perdi toda a esperança
A vida seguiu caminho
E esqueceu-se de mim aqui perdida
Todos os dias vejo a pobreza à minha volta
Não a posso contornar, avanço por ela
Faço como os outros, finjo que não a vejo
Sou mais uma cega que não quer ver
Pergunto-se se eles nos vêm
Como nos vêm?
Estivam a mão, soltam um pedido no ar
Tentam confundir-se com o chaõ
Procuram ser camaleões humanos
Humanos... será que mais alguém os vê humanos?
Despojos da sociedade
Farrapos renegados para a rua
Não podem ser reciclados
Ninguém os quer
Fugidos ou abandonados, deixam-se ficar
Vagabundos sem nome
Os que ainda o têm em breve o esquecerão
Vivem de memórias apagadas
Quando eram eles que não viam
Com vidas apressadas
No jogo do empurra que se faz tarde
Têm agora o tempo do mundo
Para viver a solidão da rua
Onde em cada esquina
Se solta uma vida perdida
E se ganha um olhar vazio
E a pobreza é apenas um sonho
Entre o tudo ou nada...
Todos sofremos algures no caminho
Sentimos a dor da perda
O sofrimento que cega o coração
Pega e reparte-o em pequenos pedaços
Joga-o pelo chão
Como se lixo fosse
Nada o poupa à dor
Que bate por dentro
Sufocando o peito oco
Percorrendo veias vazias
Inunda o corpo de nada
Espalha-se pelo olhar
Que ninguém quer reconhecer
O tudo se esvai no ar
Preenche-se pelo vazio
Fica o corpo flutuante
Numa vida sem sentido
Jogado na maré
Do dia que segue o outro
Sem norte nem rumo
Vai um ser preenchido pelo sofrimento
Só ele é certo
Numa vida de incertezas
A felicidade é tão fugaz
Demora a chegar
E logo parte sem aquecer o corpo
Num abrir e fechar de olhos
Se não for agarrada
Perde-se no tempo...
E o sofrimento... ocupa o seu lugar
E todos sofremos
Algures neste caminho da vida.
Procuro o tempo perdido
Procuro por algo
Procuro o tempo que passou
Procuro o que perdi
Não sei em que tempo estou eu
Não sei de que tempo é feita a vida
Não sei de que tempo sou
De que tempo és tu
De que tempo somos nós
Seremos do tempo presente
Do tempo passado
Seremos nós no tempo futuro?
Tento entender a palavra tempo
Tento compreender o que será o tempo
Só o tempo o dirá
E tudo deixo jogado no tempo
Palavras ao vento
Levadas pelo tempo
Sentimentos com que o tempo brinca
Olhares perdidos num tempo
Num momento algures
No tempo ficaste parado
Recusas olhar este tempo hoje
Negas aquele tempo que vivemos ontem
O tempo que agora vivo
Não o quero...
Fujo do tempo que tenho
Contigo todo o tempo levaste
O tempo em que fui feliz
O tempo em que tive teu carinho
O tempo em que me amaste
O tempo em que me deixaste amar
Levaste o tempo contigo...
Será que o tempo te trás de volta?
Sinto a fome roer-me por dentro
Sinto o corpo ceder à fraqueza
Não posso mais, a força já foi
Deixo-me cair por terra, desisto
Nada tenho para ficar
Nada que me faça lutar
A solidão acompanha-me
Sempre
Desde sempre
Única que me foi fiel
Única que a meu lado ficou
Olho o meu prato habitual
Verde, como a cor da esperança
Qual esperança?!
De nele encontrar um pedaço de carne?
Carne que não esteja já podre
Restos dos que não me vêm, largada
Por gente de cara lavada
Que me ignora deitado no chão
Já nem estico a mão
Esmolas não quero mais
Não sei para onde olho
Deixo os olhos parados em mim
Vejo os vultos passearem-se
Sem vagar de parar
Não sei se grito...
Nada ouço à minha volta
Um céu de estrelas ilumina-se
Sinto-me cair no abismo
O momento tão esperado
Que será que farão com o que resta de mim?
Serei enterrado?
Ficarei a apodrecer?
Alguém irá reparar que estou morto?
Não me olham em vivo
Só em morto...
Quando o cheiro incomodar
Ainda mais do que este que já não sentem
Será que vem o contentor grande?
Vou ter um caixão?
Ou será o meu fim o saco de plástico?
Nem a minha morte vou saber
Já nada sinto
Nem fome
Nem dor
Estou morto...
Sinto as palavras correrem em mim
Percorrem o meu corpo
Tomam a vontade de te escrever
De te dizer o quanto te sinto
De te dizer o quanto te quero
De te dizer tudo aquilo que és
Deixo-as livres para que o saibas
De uma noite de luar
A uma tarde de sol
De um abraço profundo
A lágrimas de felicidade
De um beijo carinhoso
A um beijo de amor
De um olhar curioso
Ao bater do coração
Sinto-te cada dia mais
Envolvida nesta paixão
De não mais procurar
Entregue a um amor
Na sua infância o mais lindo
Crescendo a cada dia
Com coragem de enfrentar
Cada hora, minuto ou segundo
Em que longe estás
Vou largando estas palavras
Que te trazem para junto de mim
Como no sonho que todas as noites vivo
De ter aqui... lado a lado
Hoje, ontem e sempre
Com estas palavras muito quero dizer
Mas muito mais quero viver!
Sinto-me presa
Como um pássaro sem asas
Preso ao chão sem amarras
Sinto-me presa
Quero voar e não posso
Quero correr
Quero fugir
Quero sair daqui
Destas paredes
Brancas
Gente parada, morta
O ar pesa-me nos pulmões
Magoa quando respiro
Salto pela janela
Corro, fujo para longe
Não sei para onde vou
Sei que aqui não quero ficar
Sei que aqui não pertenço
Sei que aqui não me querem
Não olho para trás
Nem por um segundo
A vida espera-me à frente
Tenho de a alcançar
Sei que está lá
Sei que sim
Sei...
Sinto o toque da liberdade
Sinto as minhas asas
Posso esticá-las
Voar
E tocar o céu
...Posso voar
...Posso voar
Sinto-me presa
E quero ser livre!
Procurei a minha vida
Por entre muralhas caídas
Destroços de um dia já vivido
De um sonho já sonhado
Alimentando a dor
De uma saudade já sentida
Uma vida perdida
No meio do nada
Um corpo frio
A flutuar no vazio
Puxo para perto de mim
Procuro...
Não há vida
Aperto contra o coração
Num abraço de amor
Quero dar-lhe a vida
Que eu já não sei viver
Perder a esperança
E não morrer
Parte a alma e fica o resto
Vagueando por memórias
Alimentando lágrimas
Ensaiando mortes desejadas
No desespero do nada
Deito este corpo no chão
Sonhando com o momento
Em que cairá sem vontade
Sem querer
Sem saber
Sem vida...
Deixas-te seguir
Sem querer nem saber
Por onde te leva o destino
Não cantas o teu fado
Não vês por onde passas
Andas no vai-vem da vida
Deixas-te ir
Nessa maré que te puxa
Julgas o mundo a teus pés
Ignoras o que vês
Andas no vai-vem da vida
Deixas-te ficar
Lavado na ignorância
Dos que não querem que vejas
Que a liberdade estás a perder
Andas no vai-vem da vida
Deixas-te enganar
Pelos que demais sabem
Mestres da ilusão
Doutores do engano
Andas no vai-vem da vida
Deixas-te adormecer
Pelas cantigas de embalar
Que te cantam
E encantam
Andas no vai-vem da vida
Sem querer nem saber
Deixas que te levem
A escolha
A liberdade
E a vida!
Ouço um murmurio no ar
Sinto os sussurrares suspensos
Parecem a melodia do mar
Nas ondas que abraçam a costa
Procuro ouvir as vozes
Perceber as palavras
Entender os significados
Ouço um murmurio no ar
Fala de ti e de mim
Fala de nós
Sinto os olhares presos em mim
Sorrisos que se espalham
Alegrias que aumentam
Abraços sem fim
Ouço um murmurio no ar
De desejo e sufoco
Ouço a musica dos risos
Corpos que passeiam
Flutuam nos segredos
Que à minha volta dançam
Danças de amor desejado
Ouço um murmurio no ar
Ar que se solta fino
De bocas escondidas
Olhares que escapam
Sorriem para mim
Quando os olho sem saber
Do segredo que me guardam
Ouço um murmurio no ar
É o bater do meu coração
Olhando o céu
Procurando entre as estrelas
Esperando o meu amor chegar
É o desejo de te ver
Aqui...
Ouço um murmurio...
O vento junto ao ouvido
Conta-me o segredo
Viajas na cauda de um cometa
Ouço o amor que grita em mim
As saudades que vou deixar de sentir
Quando junto de mim estiveres!
Um povo que cai na amargura da noite
Procura uma luz que lhe ensine o caminho
Tenta manter acesa a chama da esperança
Quando tudo começa a apagar
Nas ruas já não faz eco o som do movimento
Já não se ouvem os risos alegres
Estão no seu lugar os gritos de dor
O choro abandonado neste lugar sem cor
Nuvens negras abatem-se sobre os resistentes
Nada parece mudar este tormento
Procuram onde agarrar, a salvação
Tudo está escuro e breu
Os candeeiros não dão luz
Apagados como a alma deste povo
Fica caído na escuridão total
Esperando a chegada do sol
Amanhã será um novo dia
... se o amanhã chegar
Quem se levanta depressa cai
Ninguém sabe procurar
Alimentam-se da espera vã
De um dia melhor
Resignam-se pelo triste fado
E ali se lamentam
Triste vida que mais não faz
Um lamento é um grito de guerra perdido
Baixam as guardas
Entregam as armas
Desistem da luta
Desistem da vida
Nunca sabes o que tens
Até ao momento que perdes
Deixas que te entrem na vida
Não reclamas
Não lutas
Vês a tua vida ser retalhada
Não tens voz para mandar
Já nada é teu
Tudo te levam
Não sabes porquê
Não entendes
Mal nunca fizeste
Mal te desejam
Não, não te querem mal
Querem aquilo que é teu
Apoderam-se sem piedade
Roubam-te a liberdade
A casa é tua por direito
Pensas tu!
Direitos não tens
Já os perdeste há muito
Abriste a porta e levaram-tos
Foste enganado pelo sorriso
Agora...
Olhos rasos de lágrimas
Lamentas o que restava
Pois já nada tens de verdade.
Rezo a todos os santos
Peço-lhes ajudas muitas
Pouco ou nada é o que recebo
Sou fiel
Cumpro a minha penitência
Sem reclamar da dor
Oferendas e esmolas eu dou
À casa do senhor me desloco
De joelhos me ponho
Visito Nossa Senhora
Sou fiel
Não matei
Não roubei
Não desejei
Tudo, de corpo e alma dei
E nada recebi
Tudo me foi retirado
Culpa de um qualquer pecado
Por mim não cometido
Sou fiel
Sou uma ovelha neste rebanho
Que se deixa guiar de olhos tapados
Abri-los não quero
Apenas espero por um milagre
Sou fiel
Nesta vida pagarei os crimes
De um passado que não escolhi
O meu pedaço de céu já comprei
Terceira nuvem de algodão
À esquerda do São Pedro.
Esta noite vou ao teu encontro
Quero que me abraces
Quero que me beijes
Suave, meigo e carinhoso
Estou com saudades tuas
Sinto o coração irrequieto
Desde que foste do meu sonho
Acordei à tua procura
Mas tinha terminado
Não sei porque me fazes isto
Brincas comigo
Alimentas-me a noite
Acordo com um sorriso
Aguardo a chegada...
Esta noite vou ao teu encontro
Quero que me abraces
Quero que me beijes
Suave, meigo e carinhoso
Não quero ter mais saudades
Quero sentir-te acalmar este coração
Doido, que bate por ti
Sentir teu aroma preencher-me
Ver a lua e as estrelas
Num abraço profundo
Conquistar todo o amor
Que tens para mim
E em teus braços, protegida
Poder acordar para sempre
Esta noite vou ao teu encontro
Quero que me abraces
Quero que me beijes
Suave, meigo e carinhoso
E nunca mais me deixes...
Somos pensadores
Desta e da outra vida
Pensamos abrir os olhos
Pensamos mudar o mundo
Procuramos fugir
Não ficar num lugar comum
Tentamos ir fundo
Somos pensadores
Gritamos
Vamos à luta
Por esta vida
Somos pensadores
Não queremos fechar os olhos
Tapam-nos o sol
Mas rasgamos a peneira
Mandam-nos calar
Mas gritamos mais alto
Atiram-nos para a ignorância
Mas lutamos contra a apatia
Levantamo-nos do sofá
Largamos a televisão
Vamos para a frente da luta
E contra o sono lutamos
Não nos deixamos adormecer
Pelas falinhas mansas
De quem nos quer pobres
E bem agradecidos
Somos pensadores!
Movemos a mente
No marasmo da sociedade
Não nos deixamos levar
Juntamos as vozes
Juntamos a vontade
De criar e mudar
Não deixamos que nos roubem
A nossa liberdade
Somos pensadores
Somos a Move-a-Mente!