dezembro 26, 2003

Para a Bárbara

Um sorriso encantado
Desenha-me outro nos lábios

Olhos brilhantes do sono
Observam-me
E logo pequenos braços me rodeiam
Um beijinho de baba
Que me aquece o coração
Abraço pequeno
Enche-me o pote do calor
Fica o coração risonho
Quando de mão na mão
Seguimos
Um pôr-do-sol
Uma brincadeira
O riso de uma criança
Inocente
Poderoso
Carrega o meu coração
Brilham os olhos
Sorri a alma
E sonho na noite
Com outro dia assim

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Respostas Procuram-se

Desenho respostas no tecto
Procurando apagar os "Porquês?"

Sei que não são estas as que quero
Tento enganar-me só mais esta vez
Preciso convencer-me de novo
Dar o passo atrás
Fugir do abismo que chama por mim
Procuro... fecho os olhos
E espero
Sinto o corpo balançar
Uma brisa de vento
Roça-me como um beijo enviado
Não sei quanto tempo ali fico
Com o corpo balançando
Largada à sorte do meu fado
Danço no doce limbo
Entre o ficar e o partir
Sinto um sorriso desenhar-se
Nesta dança do abismo
Recebo a resposta que não procurei
Deixo-me cair...
Sento-me e vejo a beleza
Que me neguei observar
Mil caras reconheço
Mil nomes relembro
O sol está a adormecer
Diz-me que é hora de voltar
Ainda não chegou a minha hora de ficar

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Puzzle Vida

Sinto os olhos cansados
O corpo pede descanso
Mas não deixo de pensar

Loucuras ou apenas ideias
Voam livres no emaranhado
Daquilo a que chamo cérebro
Surgem as perguntas
E respostas
Não sei se aparecem na ordem certa
Nem sempre fazem sentido
Mas também, do pouco que sei
E do que lentamente aprendo
Cada dia faz menos sentido
Mas fico mais ansiosa pelo seguinte
E assim vou criando este puzzle
A que dou o nome de Vida

Publicado por lobalpha em 02:51 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Dia Em Que Morri

No dia em que morri
Vi sorrisos espalhados

Corpos dançavam
Com a marcha fúnebre
Lágrimas não haviam
Tristeza ninguém conhecia
Aoenas o meu corpo ali jazia
Imóvel, estático
Morto ou apenas sem vida
Já nem sei...
Sei que me enterraram
No final uma salva de palmas
Julgo ter sido para mim
Agora sei que foi a alegria
Desta vida ter findado
E outra aqui nasceu

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dezembro 25, 2003

Tento

Tento dia após dia
Luto em mim
Cega
Magoou-me por dentro
Ninguém vê as marcas
Os olhos já não choram
O corpo já não cede
Mas a alma...
Está morta!

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dezembro 17, 2003

Um Novo Dia

Toca o despertador
Cedo para mim
Já hora avançada para muitos
Tento fingir não ouvir

Imagino que estou a sonhar
Mas a maldita vozinha
Martela-me a cabeça
"Já é hora!
Já é hora!"
E por mais que a ignore
Ela martela com mais força
"JÁ É HORAAAA!"
Viro-me e reviro-me
Enterro a cabeça na almofada
Preparo-me para levantar
Como uma cobra vou deslizando
Chego para a beira da cama
Continuo a resmungar com o alarme
Estão agora a falar sobre o trânsito
Todos os dias é o mesmo
A música entra e arranca-me algumas notas
Murmuradas de mau-humor
Estico-me tão longe quanto posso
Puxo a cadeira para perto
Sento-me na cama, bocejo
Enquanto me espreguiço
Estico os braços bem para cima
Seguindo com a cabeça
Prendo o olhar no tecto
Vejo a constelação que desenhei
Aquelas estrelas que brilham de noite
Tenho-te sempre presente e brilhante
Desejo-te um bom dia aí em cima
"Amo-te..." e uma lágrima ainda rola
Regresso à realidade
Com a cadeira perto da cama
Tiro os cobertores das pernas já frias
E faço o exercício matinal
Um salto da cama para a cadeira
As primeiras vezes caí
Mas agora, sou medalha de ouro
Dois meses depois sei sentar-me sozinho
Vou tomar o pequeno-almoço
E sigo...
Ganhei as rodas que tanto amava
Perdi as pernas e perdi-te a ti
Agora preso nas rodas
Um novo dia, uma nova aventura
...

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dezembro 16, 2003

Sei Que Pensas Em Mim

Sei que ainda pensas em mim
Quando de noite olho a lua
E vejo a lágrima que lhe escapa
Em forma de estrela


Sei que és tu que choras por mim
Aqui tão perto
Sempre guardado no meu coração
Manténs a distância
Que atropela esse sentimento
Refugiaste no medo
Daquilo que já foi
Vives no passado a dor que não te dei
Recusas o amor que tenho aqui e agora

Neste momento
Desde o dia em que me olhaste
De olhar fixo feito de vidro
Cortaste-me o coração
Com a certeza de mais não me quereres
Sabendo que mentias
Teu corpo pedia por mim
Teus olhos chamavam meu nome
E agora...
A noite chora a tua mágoa
De longe eu estar
E longe não me teres

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Uma esmolinha...

"Uma esmolinha
à ceguinha"

Dizes tu de olhos baços
Encovados na cara gasta
Escorrida pelo peso do tempo
De prato verde estendido
Esperas a benece de alguém
Um estranho que sinta pena
E junte outra moeda como essa
De um cêntimo que aí tens
Moeda que sentes no prato
E um sorriso te desenhou
Não sabes o seu valor
Talvez não conheças o seu tamanho
Um pão não te compra
Nem a felicidade de trará
Se a esse cêntimo outros se juntarem
Talvez esta noite possas jantar
"Uma esmolinha
à ceguinha"
Continua a tua voz nos meus ouvidos
Três estações depois
Pergunto-me agora
Quantas moedinhas terá
O prato verde que esticaste
E eu ignorei...

Publicado por lobalpha em 02:22 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 14, 2003

Enquanto

Enquanto me preparo para deitar
Páro olhando a tua foto
Guardada no meu recanto
Presa no tempo do passado

Enquanto me enfio debaixo dos cobertores
Aquecendo o corpo frio do inverno
Sinto a alma pequena neste quarto
Que segreda as minhas dores

Enquanto deito a minha cabeça
Na conhecida almofada
Sinto medo ao olhar em volta
O escuro que ensombra este quarto

Enquanto procuro uma luz
Enrolo-me sobre mim
Sentindo o peso das cobertas
QUe me aconchegam como abraços

Enquanto fecho os olhos
E esqueço do medo
Sinto a saudade doce
De seus carinhos meigos

Enquanto entro no sonho
Corro para os seus braços
Que me acolhem com o seu encanto
De olhos verdes e sorriso triste

Enquanto me sussurra
Palavras de encantar
E me mata a saudade
Do seu suave embalar

Enquanto em sonhos o encontro
Tenho o meu sorriso inocente
O corpo quente na noite mais fria
A alma maior que o ser na sua alegria

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dezembro 12, 2003

Tubarões

Rios de lágrimas correm todos os dias
Formando lagos salgados de dor

Desaguam em oceanos de tristezas
De ais e sufocos guardados em segredos
Corações que fraquejam com o tempo
Almas que se esvaiem com a mágoa
Derretem-se no leito do rio
COrrendo sem retorno
Esperam-nos os tubarões ansiosos
Pelo alimento da presa fácil
No dia em que morre mais um pobre
É o dia em nasce outro rico
Engorda tubarão do poder
Dessas lágrimas temperadas do sal
E da amargura da vida sem nada
Cansadas do trabalho
Cansadas da escravidão
Crescente dia após dia
Pequenos peixinhos nos tornamos
Fechados nestes aquários
Por nós criados, cofres das amarguras
Caixa forte das tristezas
Inundados também eles das lágrimas
Não comovem tubarões
O brilho que não luz nos olhos da criança
Não comovem tubarões
A cara suja do pequeno ser
Comovem tubarões
A conta bancária emagracer
Morrerão os tubarões
Quando mais lágrimas não houverem
Morrerão os tubarões
Quando o pequeno peixe gritar
Morrerão os tubarões
Quando os rios secarem
Os lagos vazarem
E a fome eles passarem

Publicado por lobalpha em 12:26 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 08, 2003

Rei Bobo

Hoje correm palavras ocas
Saiem de inconscientes bocas

Entre sorrisos promessas vãs
De dias melhores
Não dizem para quem
Porque aqui, no pedaço de terra
Este que foi esquecido
Não há dia melhor que o anterior
Nem noite pior que a próxima
Vem o sol de riso largo
Aquece a terra fria que nos mata de fome
Dá o pouco de calor a que temos direito
Esconde-se nas nuvens negras
Castigam-nos sabe-se lá porquê
Jorram-nos água em cima
Lavando a poeira da noite fria
Nem sabem que ali estamos
Noite e dia
Esperando o fim
Mas até o fim parece ter esquecido de nós
Somos o resto deste mundo
Seres podres jogados fora
Largados na terra de ninguém
Por alguém
Que um dia cá esperamos
Esse será o resto do nada
E com ele o fim chegará
Dia e noite
O esperamos
Excomungador será excomungado
E a vida terá significado
E estes restos de gente
Que por aqui se arrasta
Poderá sorrir
Pelo sabor doce da vingança
Do rei que virou bobo

Publicado por lobalpha em 09:51 PM | Comentários (0) | TrackBack