Fecho os olhos
Deixo o ar entrar
Suavemente
Sinto a frescura matinal
De olhos fechados
Absorvo este verde
O céu azul
Escuto o silêncio
Sinto esta calma em mim
Percorre-me
Sabe o seu caminho
Como o rio conhece o seu destino
Segue o seu leito
Aqueço com os primeiros raios
Sorri para mim
Pequeno e longe
Abre os seus braços
Sei que me espera
O seu doce abraço
Desço este monte
Coberto de um manto amarelo
Sigo a passo para ele
Todas as noites nos encontramos
Em segredo
No meu coração
Neste pequeno canto
Inventei-o para nós
E lá o espero
Sempre...
Por vezes sinto-me entrar num tunel sem fim
Escuro
Por vezes sinto-me tão só que não vejo quem me rodeia
Vazia
Por vezes sinto-me cair no chão sem que ninguém me agarre
Sozinha
Por vezes sinto-me perdida no mundo que criei
Desorientada
Por vezes sinto-me triste com a imagem refletida no espelho
Desconhecida
Por vezes sinto-me...
São tantas as vezes que perco a conta
São tantos os porquês que sufoco
São tantas as vezes em que espero
Espero por ti
Espero por alguém
...por ninguém
Não há caminho para mim
Não enquanto estou parada
Não enquanto estou de olhos fechados
Não enquanto tiver medo
Por vezes sinto-me capaz de vencer o mundo
Sou eu
Por vezes sinto-me capaz de viver
Sou eu
Por vezes sinto-me capaz de ir em frente
Sou eu
Por vezes estas vezes são mais vezes
Por vezes as outras vezes desaparecem
Risco-as de mim
Risco-as do meu dicionário
Levantei a cabeça...
E por vezes vou vencendo
Um dia depois do outro
Sei que vou vencer
Vi um velho sentado
No chão
Numas escadas
De madeira podres e partidas
Senti o coração pesado
Triste
A seu lado
A trouxa
Roupas rasgadas e trapos
Enrolados num lençol velho
E sujo
Agarrava como se fossem a sua vida
Bem junto ao peito
Com força
Com cuidado
Olhei-o nos olhos
Respondeu-me um brilho
Ofuscou-me
Com um sorriso
Meio destendado
Senti o coração leve
Ele tem o seu tesouro
E eu? Onde está o meu?
Estava caída num caminho desconhecido
Uma pedra fez-me cair
Não sabia levantar-me
Mas sabia que ali não podia ficar
Olhei em volta
Foi a primeira vez que vi o mundo
Revelou-se para mim
Tanto que eu não conhecia
Seguia de cabeça demasiado erguida
Para ver como era o mundo
Comecei a sorrir
Deitada no caminho desconhecido
Sorri
Com vontade
O meu corpo ganhou forma
Vontade
Levantei-me
Olhei para o caminho que ficou para trás
Olhei a pedra
Olhei em frente
Fiquei parada...
Num impulso peguei a pedra e andei
Saí para fora do caminho
Segui por onde a vista não alcançava o fim
Muitas pedras me apareceram
Em muitas caí, de outras desviei
Mas carrego sempre comigo
A primeira pedra em que tropecei
Tropecei numa pedra
Estava no meu caminho e não a vi
Seguia de cabeça demasiado erguida
Não olhava o que me rodeava
Seguia o caminho que me indicaram
Não questionei
Não recusei
Caminhei como uma boa menina
Fui pela estrada que mandaram
Com os olhos bem erguidos
Tudo pisava
Nada importava
Apenas o caminho que tinha de seguir
Mas...
Estava lá uma pedra
E eu não a vi
Tropecei
Cai
Ninguém me falou da pedra
Ninguém me disse que ia cair
E agora?
Tropecei
Cai
Tropecei
Não vi a pedra e... tropecei!
Sinto um rubor nas faces
Sinto o calor lento
Percorre-me...
Percorre-me e agrada-me
Depois da desgraça
Depois da perdição
Encontro aqui a paz
Encontro...
Deixo-me ficar a sentir
Deixo este ar quente entrar em mim
Seca-me as lágrimas que chorei
Seca-me as lágrimas que perdi
Aconchego-me...
Aconchego-me mais neste afago
Como que num abraço
Como que num sonho
Deixo o frio lá fora
Deixo de tremer
Em frente a este fogo
Que me aquece na noite de inverno
És o homem de ferro
Não precisas de ninguém
És o homem de ferro
Aguentas tudo
Não quebras com nada
És o homem de ferro
Se te olham com lágrimas
Não as vês, não as sentes
És o homem de ferro
Podem gritar
Podem atacar-te
Não te quebrarão
És o homem de ferro
Podes com tudo e com todos
És o homem de ferro
Estás a dizer
"Virem-me as costas"
És o homem de ferro
Não choras, não sofres
És o homem de ferro
...ninguém ouve o teu grito
Tens medo de ti
Queres ajuda
Não és de ferro!
Procuro, procuro, procuro
Estou cansada de procurar
Mas a teimosia não me deixa desistir
E assim continuo a minha busca
Procuro, procuro, procuro
Entre vales e montanhas
Mergulho em lagos, rios e mares
Sem nada conseguir encontrar
Procuro, procuro, procuro
Sigo o arco-íris
Espreito entre trevos de quatro folhas
Apenas o vazio do nada
Procuro, procuro, procuro
Tento compreender
Tento explicar
Procuro, procuro, procuro
Quem me faça compreender
Quem me saiba explicar
Onde posso eu encontrar
Aquilo que procuro sem conhecer?
Dou voltas e voltas num mundo que inventei
Corro sem me cansar por caminhos só meus
Não sei se fujo, não sei se procuro
Sigo apenas por estradas por mim criadas
viajo neste mundo de fantasia
Sem tremores ou medos vou caminhando
Num mundo de sonhos e fantasia
Criando força para acordar
E Ver que já não te deitas mais a meu lado
Todas as manhãs procuro por ti
Mas tiraste-me do teu coração
Largando-me sem folêgo numa solidão
Mal disfarçada neste olhar que carrego
Curva-me a vontade, roubando-me a vida
Lentamente corrói o coração que desprezaste
Levanto-me todos os dias com a ansiedade
Procuro por ti em cada rua onde passo
Espero pelo teu toque no meu telefone
Aguardo a tua chegada à minha porta
Sei que estou fraca e que não me gostas assim
Mas sei que me vou salvar
Neste mar imundo não me deixarei afogar
Nas lágrimas que por ti já chorei
Lavei toda a minha alma
Por ti já não posso chorar
Choro agora por mim
Neste mundo só meu onde não entras
Estou de luto por mim
Minha alma morreu, para em breve renascer
Todos os dias vejo a pobreza à minha volta
Não a posso contornar
Avanço por ela
Faço como os outros
Finjo que nada vejo
Sou mais uma cega que não quer ver
Pergunto-me se eles nos vêm,
Como nos vêm?
Esticam a mão, soltam o pedido no ar
Outros tentam confundir-se com o chão
Despojos da sociedade
Farrapos renegados
Não podem ser reciclados
Ninguém os quer
Fugidos ou abandonados
Deixam-se ficar
Vagabundos sem nome
Vivem de memórias apagadas
Quando eram eles que não viam
Com vidas apressadas
No jogo do empurra
Têm agora todo o tempo do mundo
Para viver a solidão da rua
Onde em cada esquina
Se solta uma vida perdida
E se ganha um olhar vazio
E a pobreza é apenas um sonho
Entre o tudo e o nada
Gostava poder dizer-te
Dizer-te o quanto te quero
Quero ver-te sempre sorrir
Sorrir como só tu sabes
Sabes que tens em ti o brilho
Que me faz sonhar aquele sonho
Sonho em que eu e tu somos só um
Um ser que se complemente de nós
Nós que nem existimos no real
Real que se torna mais cruel
Cruel que mastiga meu coração
COração que apenas te quer
Quer que o aqueças com teu abraço
Abraço que sonho ter sabor doce
Doce como o teu olhar de mel
Mel que desejo saborear no teu beijo
Beijo em que me despeço ao dormir.