Passeiam na rua de mãos dadas
Brincam soltando risos no ar
O brilho dos olhos confunde-se
Com os raios do sol que mergulham no mar
Correm em jogos de sedução
Fogem para serem apanhados
Presa e caçador
Trocam papeis nesta peça da vida
Ora caça um ora caça o outro
E nesta alegria observo-os
Aqui, onde mais ninguém pode ver
Aqui, bem escondida em mim
Relembro as promessas
Lançadas no vento
Escritas na areia
Mas guardadas no coração
Fugiram com o vento
Apagaram-se com o mar
Mas gravaram-se a ferro e fogo
... não as consigo apagar!
De olhos nos olhos
Brilho de quem ama
Juramentos e promessas
Como tudo passa tão depressa
Num limpar de lágrimas
O mundo desabou
Caiu
E levou-me com ele
Não me seguraste a mão
Não ouviste os meus pedidos
Por socorro, gritei
Pelo amor, implorei
Vi-te virar costas
E não mais voltaste
E aqui dentro ainda vejo
Já não sou eu
Quem passeia na rua de mão dada
Quem brinca...
São agora meus, os olhos que se confundem com a noite
É agora meu o jogo da sobrevivência
Presa ou caçadora... não interessa!
Aqui estou, levantada do chão
Onde um dia me deixei cair.
Estamos do lado certo da GUERRA
Estamos do lado que mata os errados
Estamos do lado certo...
Guerra?!
Lado certo?
Como pode haver um lado certo
Se na guerra de campo
São inocentes os que morrem
São os sem escolha que lá estão
Lutando por uma pátria
Por uma vida
Ou mesmo por nada
Por tudo aquilo que não tocarão
Senhores da guerra
Não empunham as armas
Não há honra
Não há lado certo
Seguros, longe da morte
Estão lá
Piores que o próprio diabo
Riem dos corpos estorpiados
Corpos do inimigo
Corpos de crianças
Com pedras como armas
Aprendem cedo a lutar
Estão elas do lado certo
Estamos nós...
Lado certo da guerra
Em todo o lado
Há sempre quem caia por terra
Não há tristeza que apague
Não há lágrima que suavize
A dor
Aquela que se vê espalhada
Nos que estão do lado errado da guerra
E agora?
Agora... a guerra vem até nós
Estamos do lado certo
Não da guerra
Mas da paz
Gritando com uma só voz
Pelos de ontem
Pelos de amanhã
Não há lado certo da guerra
Há apenas inocentes
Caídos em pântanos de sangue
Aqui ou lá
Qual a diferença da dor?
É a morte que bate à porta
É o sangue que se espalha
Pinta o chão
Deixa o cenário tão colorido
Que depressa fica negro
Não há lágrimas que lavem o sangue
Sangue derramado
Lá longe ou aqui ao lado...
Caíram do ar os outros
Caiem por terra estes
Para onde cairão os próximos?
Quem serão?
Pára a dúvida no ar...
Os majestosos mantêm ar de poderosos
Quando poder não têm
Apenas mais umas bombas para lançar
Inocentes para matar
Com ou sem escrúpulos
Isto e aquilo se vai fazendo
O porquê já ninguém o sabe
Honra, vingança ou simples entretém?
Crianças que brincam ao esconde esconde
Matam de manhã, tarde ou noite
Não há horas sagradas
Só guerras santas...
E estamos nós numa guerra
Em que o maior inimigo
É aquele que tem por missão
A nossa protecção...
Em que graças iremos cair?
Quem?
Quando?
E como?
Somos carne para canhão
E aqui andamos
Aterrorizados agora
Sem sabermos que sempre fomos
Protegidos pelo inimigo!
Não importa de que cor está o céu
Pode estar azul, cinza ou até preto
Não importa a cor...
Importa sim a cor do teu coração
Está ele azul a brilhar?
Está ele cinza e triste?
Está ele coberto pelo manto negro da solidão?!
Esquece a cor do céu
Lembra-te do calor do sol
Que insiste todos os dias
Sempre regressa
Limpa o teu coração
E mesmo com chuva
Chuva de pedra
Neve
Granizo
Sorri
Pois hoje é mais um dia da tua vida
E todos os dias devem ser celebrados
E nunca lamentados...
Com dentes afiados ferram-nos a pele
Como cães esfomeados rasgam-nos a carne
Roiem-nos os ossos
Nada deixam de sobra
Levam tudo
Cães esfomeados de barriga cheia
É o que eles são
Comem-me a mim
Comem-te a ti
Comem este povo adormecido
"Belos petiscos"
Pensam eles, sentados nesta pequena mesa
E vão enchendo o papo
Não de grão a grão
Nem de uma só vez
Mastigam-nos bem mastigados
Trinta e duas vezes
Como manda a regra
Bem triturados
A fome não cessa
E acabado de comer um
Já outro se segue na ementa
Dos que morrem à fome não querem nada
Já outros os comeram
São os restos que se põem na borda do prato
Um prato bem servido
Como é este Portugal
Nem que grite daqui não consigo sair
Eles voltaram para comer
Comer o que os outros não comeram
Afinal,
Os outros não comeram tudo...
Deixaram-nos a nós!
Escondam os feios
Vem aí a parada
Desfile dos bonitos
Dos belos e elegantes
Escondam os horrendos
Os pobres e indesejados
Nojentos imundos
Apodrecendo ao sol
Deixem brilhar os grandes
Os magníficos exemplares
Deixem que passem
Pisando o chão lavado
Sem qualquer resto da pobreza
Sem qualquer resto da imundíce
Escondam a fome
Escondam a lágrima
Deixem a rua brilhar
Para os senhores
Para os altivos
Para os desejados
Escondam os magros
Escondam os pestilentos
Deixem ver o sabor dos ricos
Deixem sentir a grandeza
Deixem disfarçar
Brincar ao carnaval
O ano inteiro
Mascarando as ruas da cidade
Com uma coberta de ouro
Escondam os feios
Tragam os belos
A ti meu amado
Desejo o teu toque
Desejo o teu suave toque
Sentir tua respiração
Sentir a sua leve brisa em mim
A ti meu amado
Desejo dar tudo o que me dás
Desejo ser tudo o que me és
Abraçar teu doce abraço
Abraçar todo o teu amor
A ti meu amado
Espero esta noite
Como na noite anterior
Para de novo nos unirmos
Dois corpos num só
A ti meu amado
Dedico este poema
Por todos os momentos
Que passamos juntos
Por todos os momentos
Que iremos juntos passar.
De repente as luzes apagaram-se deixando tudo às escuras.
Apenas conseguia ver o que a lua deixava... era ela que mandava nos nossos olhos.
Deixei-me ficar parada por instantes até me habituar à escuridão... estranho, habituar-me à escuridão... fujo dela não sei há quanto tempo e agora vejo-me sem saída... não há nada que não seja o escuro... nenhuma vela, nenhum isqueiro... nada! Espero que meus olhos consigam observar os vultos que sinto por perto, peço que a lua me proteja... Quando me sinto segura, começo a caminhar. Não sei em que direcção vou, apenas caminho para não ficar parada à mercê não sei de que estranhos seres da escuridão... caminho com medo. Durante o dia não sei para onde vou, agora... agora continuo sem saber para onde vou nem por onde vou... estou perdida já há muito tempo!
Caminho na esperança de não esbarrar com ninguém pelo caminho, não quero
ser forçada a ter de mudar a minha rota... mas, também não tem importância...
nada me espera no fim do caminho, isto se houver um fim para a minha caminhada. Já não sei... Tempos houve em que alimentei essa esperança... chegar ao fim e ser recebida de braços abertos... oh! doce ilusão! Não sinto uns braços acolherem-me faz muito tempo... não fosse a saudade tão cruel e já não me lembrava da sensação dum abraço!
Talvez seja assim que se sente uma flor do deserto... à espera da sua gota de água... parada no meio do nada, olhando o céu... esperançosa duma nuvem escura que lhe traga a chuva... eu ando no meio do nada, olho em frente na esperança dum pouco de luz...
Por vezes tenho vontade de olhar para trás... curiosidade de saber o que lá fica... mas tenho medo... caminho com medo do que vou encontrar (se encontrar algo) e medo tenho do que deixo para trás...
30 de Maio 2001
8 de Março
O oitavo dia do terceiro mês
Repete-se todos os anos
É o dia internacional da mulher
É o meu dia
Mas nem no nosso dia
Nem mesmo neste único dia
Deixa de haver a exploração
Deixa de haver o machismo
8 de Março
O nosso dia
Dia da mulher e do homem
Pois não é do ventre feminino que ele nasce?
E é o homem quem mais fere a mulher
Rosas espalhadas pela rua
Neste dia a celebrar
Direitos ganhos e já perdidos
Dia da mulher
Na nova era da exploração
Esta era que é feita do fingimento
Feita e desfeita
Lágrimas e correntes invisíveis
Que nos prendem aqui
Mas não há mordaça que nos cale
Não há força que nos pare
Pois hoje é 8 de Março
o nosso dia
o dia da MULHER!
Voltaram os monstros
Pensava que os tinha vencido
Enviado para bem longe de mim
Enganaram-me
Estavam adormecidos
Aqui, onde me atacaram
Fizeram seu ninho em mim
E acordaram...
Na cara onde ontem estava o sorriso
Estão agora lágrimas reprimidas
O peito fechado sobre si
Carrega o peso e a dor
A imagem que vejo ao espelho
Nada passa
A que agora se reflete é a de ontem
Na rua fujo
Escondo os olhos
Húmidos
Sinto o coração querer fugir-me
Sinto-o gritar por socorro
Tenho medo que me toquem
Não sei o que me segura
As pernas seguem seu caminho
Com o peso do corpo
E dos monstros
Ai! se soubessem quanto me pesam...
Se ao menos os pudessem ver
Eles voltaram...
Olhamos este tempo
E lamentamos
Olhamos quem dorme ao relento
E lamentamos
Deixamos os dias passar
Não percebemos
Deixamos a vida parar
Não percebemos
Cegos num mundo fingido
Criamos
Mudos num mundo de fantasia
Sorrimos
Surdos num mundo de ilusão
Choramos...
Nobres são os corajosos
Capazes de abrir os olhos
Cheirar toda a podridão
Estamos cercados...
Olhamos este tempo
E lamentamos
Olhamos os que se erguem
"Pobres loucos"
Pensamos
Loucos que lutam
Loucos que lutam
Lutam estes loucos
Por eles e por nós
Também por nós...
Olham este tempo
E lutam
Olham quem dorme ao relento
E lutam
Lutam por eles
Por nós!
Por nós...