Esta noite quero chegar a casa
Deitar-me em teus braços
Saber que é assim
Respirando o teu ar
Beijando o teu corpo
É essa a minha casa
Deitada em ti
Protegida do nada
A minha casa é contigo
Quando a teu lado acordo
Quando contigo me deito
Segundos antes de adormecer
O teu sorriso me embala
É assim que me sinto
Em casa
Com a cabeça à roda
Pergunto-me o que faço aqui
Perdida num mundo de estranhos
Procuro um caminho que seja meu
Cega na incerteza do futuro
Recuso voltar atrás
Esqueço as malhas do passado
Navegando sem rumo
Observo caras tristes
Olhos vazios e sombrios
Desenho-lhes um sorriso
Quebrando os rostos de vidro negro
Rasgando as fronteiras da solidão
Imagino fugitivos da realidade
Embriagando-se com a vida
Rindo em tom bem alto
Preenchendo o ar com a alegria
Recuso-me ser mais um
Sem rosto, sem sorriso
Presa no corpo viciado
Recuso-me navegar sem rumo
Lançar a vida na maré
E seguir
...
Quero gritar: 'BASTA!'
Quero acordar, esbracejar
Correr sem fugir
Lutar sem matar
Quero apenas, viver!
Sinto as palavras fugirem
Vomitadas numa urgência qualquer
Atiradas com raiva e prazer
Numa chuva ácida
Incendiando todo o ódio
O desgosto da visão
Vão regurgitadas na violência
De uma vontade macabra
No ardor lento, demasiado lento
Negro que nasce e renasce
Vezes seguidas e sem pausa
Num cheiro nauseabundo
De palavras já podres
Gestos já usados e gastos
Gira uma morte anunciada
Do desgosto de perder sem ter
Há sempre um lado negro
Que nos consome
Dia a dia, sempre que o sol desaparece
Coberto de nuvens
Escurece-se o céu
E a alma, de quem ainda a tem
Caiem as lágrimas
De dores não lembradas
Sofrem os corações
Os sufocos esquecidos
Cobre-se de negro manto
Os olhos da esperança
Morre sempre um pouco mais
A vida lenta
Deste rebanho que se arrasta
Na chuva ácida de promessas
De uma nova alvorarada
De um outro amanhecer
Um raio de sol rasgando o pano
Um raio de sol aquecendo
Corpos já frios de terror
Desespero
É o lado negro a nascer
Crescer
Viver
É o lado negro que se mostra
Dá a conhecer
Cria raízes que não se cortam
Alimentado pela crise
Do ser e não ser
Do que é e não foi
Não será mais
É o lado negro que se revela
Hoje mais um pouco
Amanhã por completo
Pousas a tua mão suave
Em forma de concha
Proteges meu seio
Um doce abrigo formas
Sentindo o bater do coração
Vibrante com o teu toque
Solta o sangue em meu corpo
Sinto a carne fervente
Um respirar pesado
Uma vontade a soltar
Um desejo a palpitar
Sinto a concha fechar
Lenta
O coração dispara
Vem o calor às faces
Fecham-se os olhos involuntários
Solta-se um leve gemer
Prazer
Nesse teu jeito suave de me ter