Saiem-me as palavras rasgadas num momento de raiva
Impulsionadas por um sentimento que me dói
Voam perdidas sem alvo conhecido
Apenas quero ferir alguém
Como alguém me feriu um dia
Disparo-as à toa, deixando-as seguir caminho
Procuro vingar-me, cega não sei de quê
Apenas sinto este desejo... arde-me no peito
Queima-me os pulmões, não sei respirar
Quero ver alguém na agonia
A mesma que eu senti... sinto
Quero saber que não sou a única
Triste... envolta na impureza, na imundice
Quero ver a dor saltar de outros olhos
Ouvir outro grito que não o meu
Sentir todo este desespero saindo de outro ser
O contorcer do corpo, os olhos semicerrados
Esta dor... outro que a sinta
Não a quero mais!!!!
Quero que outro esteja nesta merda de vida
Neste dessassego que não me larga
Esta miséria da rotina... acordar a sofrer
Adormecer a sofrer...
Sofrer por não sonhar!!!!!
Sinto as mãos geladas
Mas invade-me a vontade de escrever
Quero despejar palavras
Sem sentido, pouco importa
Escrever apenas por escrever
E deixar a arte realizar
(Ou não! Ou não!)
Palavras seguidas
Mais uma vez o mesmo tema
Vontade de escrever
Sem saber o quê
É assim a vida...
Também sinto a vontade de viver
Sem saber porquê
Sem saber o que hei-de viver
Respiro de forma automática
Vivo de forma automática
Olho em volta... nada
Não me sinto em casa
Em lado nenhum
Tudo me parece estranho
A cada minuto que passa
Sinto como se tivesse acabado de chegar
Uma estranha nos meus pés
Olho em volta e não reconheço ninguém
Vejo-me ao espelho...
Não sei quem sou
E sinto esta vontade
De deitar numa folha
A raiva... a frustração
De um qualquer acto falhado
Que já nem me lembro qual
Mas que me atirou para este poço
Rasgo a pele subindo paredes rugosas
Rasgo o coração sempre que caio mais um pouco
A vitória sempre seguida da derrota...
Talvez a derrota seja seguida de vitória
Mas como humana que penso ser
Sinto a derrota mais que tudo
A dor dilacerante
O desespero
O grito
Que não chega a sair
As lágrimas reprimidas
As vontades que não largo
Não realizo desejos secretos
Que se acumulam num coração fraco
Memórias transformadas
Por uma realidade cruel
Mundo de sonhos que se desfaz
Fumo... e um rasto de nada
Que se apaga ainda mais
E a vontade de escrever
Sobre tudo e sobre nada
Por pensar que posso não existir
Por pensar que não sei se existo
Quem ganhará esta guerra?
Eu ou eu?
Sairei vencedora?
Sairei derrotada?
Escrevo, enfim
Sem saber que sentido lhes dou
Deixo as palavras soltas
Livres como eu não sou
Sentindo o pouco que posso por elas
Imaginando-as rindo e sorrindo
De verdade...
Sem medo, sem vergonha...
Vivendo o que eu não sei viver
Não sei como acabar
Não sei se quero acabar
Não sei como será o fim
Se fim final
Ou um outro inicio...
Não sei...
Pensam que não sofro
Pensam que não sinto
Pensam...
Desde quando o que se pensa é a realidade?!
Mesmo que não seja... sofro!
Sofro por sofrer
Sofro por não saber amar
Sofro por não saber ser amada
E pensam...
Continuam a pensar...
Brincam com meu coração
Como se fosse um berlinde
Umas vezes atiram-no com força
Outras mais devagar
Mas magoa sempre...
Sempre e sempre mais uma vez
Pensam que não sofro
SOFRO
Mas aprendi a engolir as lágrimas
De nada me servem mais
Nem um abraço para mim
Nem uma palavra
Nada
O vazio apenas
E as lágrimas que recuso chorar
Hoje é noite de lua cheia
Deixa um rasto brilhante
Nas águas paradas do rio
Olho-a como não olhei
No dia em que partiste
Sem saber se foi minha testemunha
Não soube olhar para cima
Enquanto desci ao inferno
Ouvindo as palavras que me matavam
Pouco a pouco
Com um estranho prazer mórbido
Nem as lágrimas que gritavam
Misericórdia
Nada te fazia parar
Continuaste vezes e vezes sem conta
Sinto ainda hoje essas palavras
Ecoarem estridentes
Dilaceram e apodrecem-me a carne
Sinto já o cheiro nojento
Aquele que deixaste para trás
Olho para a lua
Pergunto-me onde estava ela
No dia em que morri
Porque não me levou para lá
Onde te pudesse esquecer!
Segue alegre a caravana
Música e cor dançam no ar
Buzinam uns, apitam os outros
Alegria não falta nesta marcha
Dançam os que podem
Saltam os que conseguem
Fico deitada eu
No meio da algazarra
Risos soltos marcham no vento
Levados de canto em canto
Anunciam a minha chegada
Preparam-me a morada
Os que lá estão
Guiam-me os que ficam
Entre dança, serpentinas e beijos
Vou eu esticada
Já rija que nem pedra
Marca apenas na minha face
O caminho gasto de lágrimas
Tantas que cairam
Finalmente cessaram
Venceram-me na vida
Mas saiem
Derrotadas na morte!
Perdi a conta aos dias
Desde o último beijo
Aquela noite feita manhã
Em que teus lábios tocaram os meus
Uma onda de calor que invadiu
Subiu e deixou marca
A derradeira paixão
Deu lugar à sombra
O frio gelado que me cobre agora
Nesta ausência do teu corpo
Dos teus beijos
E esse desejo que me angustia
De tão longe que te tenho
Perco-me na conta das noites
Passadas em branco
Na solidão dos meus braços
Sonhando com os teus
Esse suave abraço
Onde adormecia e acordava
Belas manhãs que me chegavam
De sorriso nos lábios
E um doce olhar
Deixado agora na amargura
Vazio preenchido de lágrimas
Secas de dor
Perder-me-ei nos minutos
Aqueles últimos
Precedentes do derradeiro suspiro
...
Procuro encontrar-me num lugar comum
Fugindo das lágrimas que me perseguem
Tento perder-me num deserto brilhante
Grãos de areia enchendo-me o coração
Não encontro o meu posto
Perdida sem rumo, não conheço norte algum
Percorro um caminho de procura
Sem qualquer regra que me prenda
Sinto-me perdida sem sentido
Nenhum lugar a que chamar casa
Nenhum lugar comum para mim
Não sei porquê
E talvez nem queira saber
Sentir é já tudo o que me resta
Mal respiro com medo
De um dia perder
O que hoje ainda não tenho
Tantas guerras já travei
Sinto a alma desfigurada
Sedenta de um canto em teu coração
Sinto os espinhos que se cravam
Sangrando por dentro
Não sei porquê
Temo perder-te sem te ter
Talvez saiba que um dia te vais
Sem nunca teres estado
E ver-te partir
Será mais cruel que nunca te ver chegar
As lágrimas que não vês
A dor que não sentes
Saboreio eu o sal amargo que me cai
E torço o corpo em espasmos
Involuntários
Como o sentimento que surgiu
Não sei porquê
Encontrei um rascunho
No canto da memória
Meio gasto do tempo
Já amarelecido
Palavras comidas
Ainda com sentimento
Li o teu nome
Escrito com amor
Li-o com saudade
Na recordação do que foi
Rascunho amarrotado
Mal-tratado
Pouco relembrado
Uma lágrima desceu
Por onde outras tantas desceram
Em tempos, por ti lançadas
Lágrima de lembrança
Rasguei a memória
Para não mais voltar a chorar
O tempo parece fugir-me
Enquanto estou em teus braços
Num suave embalo
Esqueço de contar os segundos
Correndo como loucos
Chega rápida a separação
E fica lento o tempo
Joga sempre contra mim
Não me querendo junto de ti
Fica louco e enlouquece-me
A saudade do teu beijo
Joga ele a sua mão
Como eu lanço a minha vida na tua
Procura afastar-me de ti
Manter-me fora dos teus braços
Esquece-se das lágrimas que derramo
Na solidão dos dias
Ansiando ardente pela noite
Amaldiçou o dia
Que faz par com o tempo