Vejo o véu negro descer
Tapando-lhe a cara
Vestido de preto repousa
Sereno
Desenhando-se um leve sorriso
Imagino o que estará a pensar
Neste leito que é seu
Olho em volta
Contraste...
As lágrimas que outros choram
E ele ali...
Não evito o meu sorriso
Ao pensá-lo sem dor
Fora do sofrimento que carregou
Descansa agora
Em paz verdadeira
Encontrou na morte
O que nunca teve em vida
Que mais te poderia eu dar
Se tudo o que é meu para ti foi
Que mais te poderia eu fazer
Se tudo o que fiz foi para ti
Que mais... mais nada, nada
É a conclusão a que chego
Se tudo o que foi, não foi nada
Nada é o que mais tenho para te dar
E já foi muito, se não o reconheces
Se não sabes olhar para mim e dizer
Dizer o que sempre quis ouvir
Ler em teus lábios as palavras
Ditas mil vezes em sonhos
Sopradas mil e uma vezes em desejos
Apagadas e rasgadas em teu pensamento
Que mais te poderia eu oferecer
Se tudo o que tenho tu negas
Que mais te poderia eu pedir
Se tudo o que tens é tão pouco e vazio
Corre um vento de norte
Segue com ele o cheiro de rosas
Rosas mortas
Trazendo à lembrança
Os que já partiram
Infesta o ar com cheiro podre
De carne já desaparecida
Na memória do tempo
Vêm as pétalas sem cor
Sem vida
Sopra mais este vento forte
Virando para leste, este ou sudeste
Carregando nas suas malhas
O sabor pútrido destas rosas
Rosas mortas
Pergunto-me porque me interesso tanto
Porque fico contente quando me falas
Ao ouvir a tua voz, sentir o teu cheiro
Se longe de ti nada sinto... penso
Protejo-me na distância
Fecho o coração na escuridão
Não o deixo pensar em ti
Passam dias e semanas
Sempre que penso que te esqueci
Apareces
Invades de novo meu mundo
Iluminas-me o coração
Dás-lhe de novo vida...
Aquela que roubaste quando partiste
Quando me disseste
Não mais poderes ficar
Uma outra vida esperava por ti
Aquela a que eu não pertencia
Egoísta
Ficaste em mim, não pertences aqui
Mas daqui não sais
Por mais que tente
Eu pertenço a ti
Não tenho mais liberdade para escolher
Olhei pela janela
Pensei ver neve a cair
Sonhei... com o branco
Deslizando suave
Vindo do céu
Sonhei, com a calma
O doce prazer de vê-la
Cair leve no chão
Cobrindo-o com um manto branco
Contrariando o negro do céu
Vi a neve cair
Só meus olhos a viram
Branca e pura
Como já nada aqui pode ser
Olhei pela janela
e Pensei ser neve que caía
Sorri na minha tristeza
De nada mais saber imaginar
Nenhum príncipe que me venha salvar
Nenhum guerreiro que me liberte
Nesta torre onde me tranquei
Já não sonho as cores do arco-íris
Apenas um branco que me acalme
E deixe adormecer
Esta alma que não sossega