Deitada num rio de sangue
Jaz na paz de alma
Encontra-se agora às portas do paraíso
Lança um último olhar
Um último suspiro
E limpa do rosto a última lágrima
Apaga as últimas memórias
Esquece os últimos momentos
O derradeiro sentir
Apagou-se...
Criou um buraco negro
De onde pende agora o sangue já frio
E a arma ali... marcando a presença
De quem há muito partiu
Não foi uma vírgula ou ponto e vígula
Não foi parágrafo nem outra linha em branco
Não foram outras mil reticiências
Nem qualquer interjeição de espanto ou dor
Foi, isso sim, um Ponto Final que escrevi na nossa história
.
Viajo fechada numa redoma de vidro
Ignorando tantos porquês que me assaltam
Não reconheço mais se é amor ou pura loucura
Este estado que me deixas
O querer e o não querer
O desejo e a repulsa
Porquês... mil e muitos porquês
Não reconheço já o normal
Acordo já ébria dum mundo de sonhos
Mundo onde não pertences
Sempre essa tua ausência
E o meu desejo de navegar
Navegar por águas calmas
Envolta na ternura doce do mar salgado
Sentir... sentir um carinho
Dando-me outra realidade
Quebrando os vidros que me rodeiam
Deixando-me respirar livre
Livre... de ti!
Num qualquer devaneio da mente, acordo para outro dia. Contra todas as vontades os olhos abrem e o cérebro desperta esquecendo a dor que o corpo sente, irmão da alma perdida. Imita nos gritos o desespero que só ele ouve e imita o desprezo que recebe. Sento-me na cama, sentindo a gravidade puxar-me para baixo. Não sei se deva resistir ou lutar... fico sentada por momentos, esperando.
Não sei porque espero... se nada me espera lá fora. Lanço novo olhar para a cama, ainda está quente o meu refúgio, desvio os olhos para a janela, o céu está azul e o sol brilha para lá deste frio. Uma inspiração não demasiado profunda e levanto-me de uma vez... aqueles rasgos de coragem que me invadem um segundo antes da derrota, chegou novamente. Procuro peças de roupa que se encaixem como um puzzle, dando-me um ar fresco e confiante... um ar, porque a certeza do que vai cá dentro só eu sei.
Saio para a rua e fico cega com o sol. Irrita-me a forma como sinto bem quando ele me atinge mesmo na cara, como uma mão que me quer despertar do desespero sem causa. Irrita-me seguir um caminho onde não me posso proteger dele e sinto o calor chegar. Minuto a minuto aqueço o corpo... gostaria eu de aquecer assim a alma, mas é de outro sol que esta precisa, um outro astro que me aqueça tão facilmente, tão simples como um sorriso... um abraço, uma ternura, um simples toque na mão, um simples toque.
Começam assim todos os dias... uma luta matinal para despertar, como seria bom que ninguém exigisse, que nada esperassem... se ao menos soubessem que nada tenho para dar, nada quero tirar ou receber... só esquecer! ... e ser esquecida, ali naquele canto onde nada nem ninguém poderá chegar, nem o sol ou a lua. Apenas eu e a noite, eterna em mim e eu nela. Eu e a noite, a escuridão total que eu peço... Todos os dias no desespero do corpo que não reage, da alma que morreu... corpo sem espírito.
Nova noite adormeci a pensar em ti
Queria que o dia chegasse contigo no pensamento
Espanto quando acordei e não te procurei
Espanto quando percebi que já não fazes parte
Não fazes mais parte de mim
Esqueci-te fora do meu mundo
Viajámos entre as estrelas e perdi-te n'algum cometa
Resta-me olhar a lua e mandar-te um beijo
Aquele que sempre te quis dar...
Último
Sem lágrimas nem amargo gosto na boca
O doce... doce sentimento que algum dia vivi
A recordação... agora sim, boa recordação
O tempo seguiu e não me deixou para trás
Hoje abri os olhos e soube que já não te procuro
Não senti vazio... sorri
Simplesmente sorri
E como soube bem!!!!
Voltar a sorrir
Simplesmente
Queria sorrir por te poder sentir
Queria navegar eternamente em teus braços
Afogar-me nos teus beijos
Naufragar no teu corpo
Ser salva pelo teu respirar
Tua boca na minha
E eu tua
Queria sorrir mas não posso
Sinto a velha lágrima
A da solidão...
Contigo mesmo a meu lado
Sei que não é em mim que pensas
Não é aqui que queres estar
De novo a velha ilusão
"Talvez um dia acordes e eu ainda aqui esteja"
Muitos "talvez"...
Demasiados já na contagem
Queria sorrir sim
Mas sou eu que me estendo sempre a teu lado
Sou eu que procuro as tuas carícias
Eu que me atiro de corpo e alma
Em repetidas tentativas
De fazer renascer em ti
Um amor que já enterraste
Queria sorrir
Pois queria!