Sinto algo apodrecer cá dentro
Sinto-o a definhar-se
Começo a desprezá-lo...
Enjoei-me deste sentir triste
Dia após dia
O afastar da realidade
A doce solidão que abracei
Sentimento podre é o que me resta
Morreu à fome
Enterrei-o em mim
E agora é cá dentro que apodrece
Murchando com ele o meu coração
Bate já quase frio
Bate fraco contra a pedra que o rodeia
Ergue-se esta muralha
Ainda maior que a grande
Fiz do meu peito um túmulo
Do meu ser a última morada
E agora sinto o peso do defunto
Cravar-se em mim
Leva-me lentamente ao fundo
Neste prazer mórbido de não viver
Noite após noite
São cada vez menos as lágrimas
Sol após sol é cada vez menos a vontade
Lua após lua é brutal a dor que se crava
E apodrece um coração ainda vivo.
Sinto a despedida chegar
O momento aproxima-se
Fazendo-se anunciar com um leve suspiro
Sopra um vento leve
Murmurando "É agora"
Desce uma lágrima que não reprimo
Nasce e morre em mim
"É agora"...
Ouço o vento falar comigo
Um doce segredo nosso
Não é a tristeza que me invade
É um segundo de paz
"É agora"
Vem um braço do vento
Lava-me a lágrima
Caiem-me os cabelos para os olhos
Deixo de ver
"É agora"
Tento ver, quero ver
Sentir e ouvir
Ter os sentidos despertos
"É agora"...
Nada vejo, o vento ensurdece-me
Fecho os olhos com força
Quero que pare
Agora.
Não há mais vento
As lágrimas secaram
A despedida passou
Tudo acabou
"Já foi"
Murmurou a brisa
E desapareceu com um beijo solto no ar
Não compreendo esta tua ausência
Disseste "até já" e soube a "adeus"
Espero pelo som do telefone
Com o teu nome escrito
Imagino as tuas mãos cercarem-me
Puxando-me para ti
Os teus lábios no meu pescoço
"Cheguei"
Sonho com este momento
Mas os dias passam
Ainda te espero onde me deixaste
Ainda espero olhando o fundo da rua
Ainda te espero com a lágrima presa
Ainda espero de coração apertado
Procuro-te em cada canto por onde passo
Imagino-te chegar entre estas gotas que caiem
Não consigo parar de te querer
Sinto que esta procura me torna pecadora
Peco por te desejar assim em silêncio
Mordo as palavras quando elas querem sair
Dizer o teu nome, gritá-lo bem alto
Tornar-me visível para ti
Mostrar-te a mulher que sou
Que quero ser para ti
Deitar-me a teu lado e juntos pecarmos
Enlaçados um no outro
Juras de amor misturando-se com os beijos
Línguas enroladas naquele momento de prazer
Sinto-me pecadora, não por te desejar
Mas por não to saber dizer
Peco no medo
Poderás tu querer esta pecadora (?!)
Que te procura aqui e agora
Eu tu não estás...
Penso em rodar
Rodopiar
Girar
Depressa
Mais depressa do que a terra
Avançar no tempo
Chegar ao futuro antes que ele chegue ao presente
Mas por mais que gire
O mundo apanha-me sempre
Penso em rodar
Rodopiar
Girar
Depressa
Mais depressa do que a terra
Mas ao contrário
Recuar no tempo
Fazer do passado presente antes que se perca no tempo
Mas por mais que gire
Ele foge-me sempre
Penso em parar
Recuso-me a rodar
Rodopiar
Girar
Mas...